mesmo que te doa o coração
e que rompam os soluços
ama sempre
mesmo que te dilacere a carne
e que jorre o sangue
ama incontrolavelmente
ainda que o peito arfe de dor
e brote em lágrimas frias
ama ainda
mesmo que não sejas amado
e te torture o ciúme
como lança fria no peito
ainda assim segue amando
até se a vida te escoa
em suspiros de saudade
ama, ama muito, ama sempre
porque a vida assim sem amar
é vida vazia
vida oca, sem destino
sem descanso, sem rumo
viver sem amar é apenas vegetar
(escrito por Zailda Mendes)
pesando chumbo no peito
de carvão queimado
no amor acabado
fiapos de carne
do meu sentimento
no choro, um lamento
no rosto, a noite
breu de treva sombria
lágrima rubra
na face de cera
estala no peito
a dor da saudade
range a alma
esticando em espasmos
lâmina de aço
cravada na mente
pontiaguda e fria serpente
estertores de morte
arrastando o dia
rasgando a vida
um fio de vida
que ainda resta em mim
(escrito por Zailda Mendes)
meu espírito vela teu sono
te beijo com a luz do luar
um beijo doce com sabor de mel
e hortelã
te toco com a brisa
que acaricia teu corpo amado
dolorosamente longe
te sussurro palavras de amor
quentes ao ouvido
nas gotas de orvalho
que voam sorrateiras
por tua janela aberta
de madrugada me despeço
no cantar do passarinho
que derrama seu canto
na aurora que galopa
te aceno "até breve"
nas asas da borboleta
que acaricia as flores
do teu jardim
tão longe e tão perto
tão perto mas tão longe
(escrito por Zailda Mendes)
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- Words
- Zaildianas
(escrito por Zailda Mendes)
Onde repouso o olhar embaciado
turvado pelas brumas da tristeza
que goteja, incessante,
que escorre lentamente
pelos poros de minh'alma,
embalada em suspiros de agonia
que exalam de meu coração?
Onde encosto as pernas bambas
da inútil caminhada
em busca dos teus olhos?
Onde descanso a carcaça,
os ossos - destroços
do gélido cansaço,
de palpável e lúgubre centelha
de dor inerte e insana?
Onde deixo os beijos - abortos -
destinados aos teus lábios?
Agora se enroscam - luzidias serpentes -
amarfanhando-se em meu peito
inundado em charcos de lágrimas cruas,
que borbulham em fontes de fel?
Onde encosto o soluço
das mil noites insones
das tresloucadas madrugadas
de prantos errantes
da chaga colossal de dor pungente
queimando lânguida, envolvente,
despojando a alma errante e triste
desfazendo-se em laços, pedaços,
esquartejando meu ser
até, enfim, voar liberto
em busca do alívio incerto
descansar, repousar, fenecer...
(Zailda Mendes)
Meu coração bate
junto ao teu, descompassado
tarado
pecado
domado
Minha boca busca
a tua, carente
doente
latente
fulgente
meu olhar cai
no teu, dorido
sentido
bandido
caído
Meu corpo se enrosca
ao teu, desperto
aberto
incerto
esperto
Meu hálito suga
o teu, agonia
ironia
fugidia
fantasia
(Zailda Mendes)
Beijo de fogo
desvario
de paixão e prazer
calafrio
fera no cio
vendaval de carícias
delícias
que varrem meu peito
colossal
alma animal
aquieta minha alma
sacia meu pranto
afoga meu olhar
serpente, carente
ardente
enxuga meu medo
me rola em segredo
abate meu pesadelo
desvelo
novelo, meu pelo
enreda minha boca
num beijo supremo
sereno, veneno
carícia insone
de música e avelã
agonia pagã
de fera, pantera
quimera
carrega meu pesar
altar, olhar
em teu hálito frio
desvio
emerge do meu sonho
medonho
e me faz tua
nua
envolvente
carente
demente
imprudente
eternamente
(Zailda Mendes)
Toma-me de um golpe
emerge de mim
me arranca das sombras
me sacia em ti
me sorve em gotas
me lambe, me engole
me embala em gemidos
me carrega em teus ais;
me encharca de amor
escorrega em meu seio
resvala em meu ventre
me invade com loucura
me abre, me cerca
me jorra, me planta
descobre meus véus
entra em meu ser
me cega de delícia
percorre meu prazer
me cavalga em agonia
me preenche, me sacode em êxtase
me alimenta com tua semente
e me deixa, dormente
vacilante, incoerente,
saciada, esvaziada
inerte em volúpia
explodida em cansaço
inundada de loucura
embebida em desejos e beijos
escalar fronteiras
de amor e tontura
em teus braços, meus laços
meus pássaros de prazer
(Zailda Mendes)
Você é o abraço da brisa
o cheiro do céu
sorriso que cristaliza
no calor do papel.
É o som do orvalho
e o gosto da canção,
a chuva em que esmigalho
a voz do coração.
Você é o inexplicável
é o insondável, inviável,
pálida e sutil quimera
É o delírio do louco,
é o meu suspiro rouco
das largas noites de espera.
(por Zailda Mendes)

Golpeia com a lâmina voraz e reluzente
meu peito que aqui jaz, dormente
estraçalha a carne com a navalha fria
minha entranha onde um coração havia.
Esparrama em mim o fel que te habita
confundindo-se ao sangue que regurgita
em ondas de indizível agonia
sombra apenas do que foi um dia.
Escancara a chaga, besta insana,
aplaca o ódio que de ti emana,
suga, sôfrega, meu último ai
enquanto a vida de mim se esvai.
(por Zailda Mendes)
Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.
(Carlos Drummond de Andrade)
Coração feito pedra
pesando chumbo no peito
de carvão queimado
no amor acabado
fiapos de carne
do meu sentimento
no choro, um lamento
no rosto, a noite
breu de treva sombria
lágrima rubra
na face de cera
estala no peito
a dor da saudade
range a alma
esticando em espasmos
lâmina de aço
cravada na mente
pontiaguda e fria serpente
estertores de morte
arrastando o dia
rasgando a vida
um fio de vida
que ainda resta em mim
(escrito por Zailda Mendes)



